5 de setembro de 2013

a palavra-falha: shiboleth שִׁבֹּלֶת

Shiboleth remete "à última guerra, a todas as guerras, à clandestinidade, às linhas de demarcação, à discriminação, aos passaportes e às palavras de passe". (Jacques Derrida, Schibboleth: Pour Paul Celan.)

" (...) Coração:/ deixa-te reconhecer também,/ aqui, no meio do mercado./ Faz ressoar o Shibolete/ Para o  desconhecido da pátria:/ Fevereiro. No pasaran." Paul Celan, Schibbolethem “Von schwelle zu schwelle” (de umbral em umbral ou de fronteira em fronteira; de passagem em passagem).

“E Guilad tomou as passagens do Jordão de Efraim, e quando os fugitivos de Efraim diziam  ‘Deixa-me passar’, então os homens de Guilad lhes diziam: ‘Es tu um efraimita?’, e ele dizianão’, então lhe diziam: ‘Diga shibolet’, e ele dizia sibolet, porque não conseguia pronunciá-lo bem. Então pegaram-no e o degolaram nas passagens do Jordão, e caíram de Efraim, naquele tempo, 42.000.” (Juízes, 12: 5-7) In: Bíblia Hebraica, trad. D. Gorodovits e Jairo Fridlin, São Paulo: Sefer Editora, 2006.

Doris Salcedo, Schibboleth, 2007.
Rachadura de 167 m de extensão.
Turbine Hall, Tate Modern, Londres

uma carta





27 de agosto de 2013

A chuva (projeto para um texto)




Em 1969, Marcel Broodthaers realizou um filme de dois minutos, em que tentava, em vão, escrever um texto sob uma torrente de água. "La pluie (projet pour un texte)" mostra o artista sentado próximo a um pequeno caixote que lhe serve de mesa. Enquanto escreve, as palavras são imediatamente dissolvidas e levadas pela água; ainda assim, o artista continua a escrever. 
Para Broodthaers, o cinema funciona como um curioso dispositivo que simultaneamente inscreve e apaga. “Ele apresenta um texto em processo de escritura e que ao mesmo tempo já teria sido escrito: um texto, que animado no presente, é imediatamente inscrito no passado”. 
As imagens do filme que mostram a impossibilidade de fixar as palavras e conferir-lhe alguma duração, parecem-me especialmente oportunas para pensar o regime da palavra informativa, que tão logo surge, é cancelada pela torrente de informações que se sucedem a cada dia, deixando atrás de si apenas um estranho rumor do mundo. (L.D.)

25 de agosto de 2013

Chohreh Feyzdjou



Chohreh Feyzdjou, estrutura de ferro com rolos de pinturas e desenhos, 1989 - 1993.
Nos últimos anos de sua produção, Chohreh Feyzdjou (Teheran, 1955 – Paris, 1996) elegeu o gesto de velamento como estrutural em seu trabalho, envolvendo tudo o que havia feito até então com um pigmento negro, transformando desenhos, pinturas e objetos em uma espécie de matéria bruta, orgânica, arcaica e futura ao mesmo tempo (pois carregada de latência e devir).
A espacialidade criada pelo seu trabalho sugere mercados, feiras, lugares saturados (como as ruelas da cidade velha de Jerusalém, por exemplo). Mas parece que chegamos tarde demais. As mercadorias pereceram. O pó que as recobria sedimentou, salvando-as, assim, pela força do esquecimento. Talvez aguardem, em estado de latência, reativações de sua matéria bruta, que fala dos atritos entre Oriente e Ocidente, essas duas instâncias, mais culturais do que geográficas, que não param de reinventar-se.
Interesso-me menos por sua ironia em chamar o conjunto de sua produção de “Product of Chohreh Feyzdjou” (como a artista decidiu no início dos anos 1990). O que me parece fascinante é a virada que marca sua decisão de assumir a entropia e o acúmulo, e deixar apenas sombras como lembranças das formas que orientaram seu trabalho nos primeiros anos.
Vejamos que em 1983, Chohreh vendeu o apartamento em que vivia em Paris para financiar uma gráfica e editar um livro, não sobre seu próprio trabalho, mas sobre a mística persa, escrito por um guia espiritual sufi que havia conhecido. Em 1992, cerca de 400 exemplares que restavam do livro foram recobertos com sua matéria negra preferida, enrolados, amarrados com pedaços de tecido e integrados à grande série “Products of C. F.” Talvez seja possível pensar que cada uma de suas séries contenham a determinação e o vigor dessa decisão. (L.D.)









21 de agosto de 2013

Para Aline Dias

Há fracassos inexplicáveis, porque aparentemente revertê-los dependeria apenas de nossa vontade. Por que interrompi a correspondência eletrônica com Aline Dias há quase um ano? A instantaneidade dos emails é maravilhosa e assustadora. Muitas vezes, é incompatível com o processamento das emoções. Mas Aline também me enviou, pelo correio, publicações preciosas da Corpo Editorial. E mesmo uma página misteriosa arrancada de um livro me foi remetida da cidade do Porto, onde ela vive atualmente. Recebi encantada e silenciosa suas garrafas lançadas ao mar. Sim, fui indelicada, mais que indelicada. 

Talvez porque responder de fato a seus envios me exigiria uma reorganização, um certo desvio que perturbaria a ordem de minhas supostas prioridades. Entre escrever-lhe burocraticamente e não responder, fiquei com a segunda opção. Meu silêncio foi uma versão de “I would prefer not to”. Como Bartleby, era preciso guardar a potencia preciosa de não fazer. 

Conheci Aline Dias ao participar de sua banca de dissertação de mestrado intitulada “Marcas e restos: concentração e organização de vestígios cotidianos” (PPGAV/ UFRGS, 2009). Desde então, o delicado rigor de suas reflexões me acompanham de uma forma muito concreta: me reconciliei definitivamente com o pó, o mofo, o bolor e o musgo, que vencem os melhores esforços de arrumar e manter tudo limpo (o que de qualquer forma nunca foi uma de minhas obsessões). 

Aline Dias
montagem das anotações na exposição gabinete,
museu victor meirelles, florianópolis, jun 2009
Acesso em: http://frasesdenovela.blogspot.com.br/

Para me ajudar a compreender os motivos de minha recusa, talvez me redimir, e, enfim, responder à Aline, compartilhei seu texto “O trabalho com(o) fracasso” com os artistas e pesquisadores aqui reunidos. O acaso fez com que nos encontrássemos em uma disciplina do Programa de Pós-graduação em Artes da Uerj, nesse primeiro semestre de 2013, meses convulsivos, em que as multidões nas ruas da cidade descobriram a potência coletiva de sondar possibilidades. Subitamente, vemos o urbanismo transformado pelo corpo da multidão. Sim, porque o urbanismo é feito também pela coreografia dos pedestres e dos inúmeros fluxos de tudo o que é transitório. 

Aliás, eis um fracasso a ser lembrado: o do urbanismo, porque as cidades escapam a todo planejamento. O fracasso do urbanismo só não é maior que o dos monumentos, que se esvaziam, emudecem, desviam-se quase totalmente das intenções que o fizeram surgir, quando não são de fato destruídos pelas mudanças dos regimes políticos. (Tenho um carinho todo especial pelos monumentos). 

Este blog é uma conversa com o livro de Aline. E visa reunir obras e reflexões sobre fracassos, falhas, desvios, impossibilidades, projetos intermináveis, tarefas infinitas. 

Leila Danziger