21 de agosto de 2013

Para Aline Dias

Há fracassos inexplicáveis, porque aparentemente revertê-los dependeria apenas de nossa vontade. Por que interrompi a correspondência eletrônica com Aline Dias há quase um ano? A instantaneidade dos emails é maravilhosa e assustadora. Muitas vezes, é incompatível com o processamento das emoções. Mas Aline também me enviou, pelo correio, publicações preciosas da Corpo Editorial. E mesmo uma página misteriosa arrancada de um livro me foi remetida da cidade do Porto, onde ela vive atualmente. Recebi encantada e silenciosa suas garrafas lançadas ao mar. Sim, fui indelicada, mais que indelicada. 

Talvez porque responder de fato a seus envios me exigiria uma reorganização, um certo desvio que perturbaria a ordem de minhas supostas prioridades. Entre escrever-lhe burocraticamente e não responder, fiquei com a segunda opção. Meu silêncio foi uma versão de “I would prefer not to”. Como Bartleby, era preciso guardar a potencia preciosa de não fazer. 

Conheci Aline Dias ao participar de sua banca de dissertação de mestrado intitulada “Marcas e restos: concentração e organização de vestígios cotidianos” (PPGAV/ UFRGS, 2009). Desde então, o delicado rigor de suas reflexões me acompanham de uma forma muito concreta: me reconciliei definitivamente com o pó, o mofo, o bolor e o musgo, que vencem os melhores esforços de arrumar e manter tudo limpo (o que de qualquer forma nunca foi uma de minhas obsessões). 

Aline Dias
montagem das anotações na exposição gabinete,
museu victor meirelles, florianópolis, jun 2009
Acesso em: http://frasesdenovela.blogspot.com.br/

Para me ajudar a compreender os motivos de minha recusa, talvez me redimir, e, enfim, responder à Aline, compartilhei seu texto “O trabalho com(o) fracasso” com os artistas e pesquisadores aqui reunidos. O acaso fez com que nos encontrássemos em uma disciplina do Programa de Pós-graduação em Artes da Uerj, nesse primeiro semestre de 2013, meses convulsivos, em que as multidões nas ruas da cidade descobriram a potência coletiva de sondar possibilidades. Subitamente, vemos o urbanismo transformado pelo corpo da multidão. Sim, porque o urbanismo é feito também pela coreografia dos pedestres e dos inúmeros fluxos de tudo o que é transitório. 

Aliás, eis um fracasso a ser lembrado: o do urbanismo, porque as cidades escapam a todo planejamento. O fracasso do urbanismo só não é maior que o dos monumentos, que se esvaziam, emudecem, desviam-se quase totalmente das intenções que o fizeram surgir, quando não são de fato destruídos pelas mudanças dos regimes políticos. (Tenho um carinho todo especial pelos monumentos). 

Este blog é uma conversa com o livro de Aline. E visa reunir obras e reflexões sobre fracassos, falhas, desvios, impossibilidades, projetos intermináveis, tarefas infinitas. 

Leila Danziger

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