pír, 2013 from cecilia cavalieri on Vimeo.
porque a pureza é a morte das coisas, a própria destruição,
e a destruição completa das coisas é o maior êxito do fracasso.
pír, 2013
cecilia cavalieri
o fogo [pur, em grego] é o
símbolo das fogueiras, da guerra e do inferno. a pureza, o puro [pure,
em francês] é um dos mais perversos ideais da humanidade. a pronúncia de ambos:
pír. em o espelho das ideias, 1994, michel tournier fala de a
pureza de um corpo químico ser um estado absolutamente contranatura e que só
pode ser obtido por procedimentos que implicam violência. a água mais pura, por
exemplo, sem sais ou traços de metais, age sobre os organismos vivos como um
veneno violento. hemorrágico. letal. como se o anúncio das naturezas das coisas não fosse o
bastante, "esses males físicos da pureza ainda não são nada se comparados
aos crimes inumeráveis que sua ideia obsessiva provocou na história.
o homem cavalgado pelo demônio da pureza semeia a morte e a ruína em torno
de si. purificação religiosa, depuração política, salvaguarda da pureza da
raça, busca anticarnal de um estado angélico, todas essas aberrações desembocam
em massacres e infelicidades inumeráveis", ainda tournier. embrenhada na ideia da pureza como destruição e fracasso, fiz esse vídeo que trata, basicamente, de impurezas : uma flauta mal tocada, um espelho quebrado, um corpo sujo, um olho mais sujo ainda que o observa, um espaço sujo refletido em preto e branco, a sujeira do grão da fotografia, o ruído de uma fala sobre o questionamento blanchotiano : o homem só é indestrutível porque não há limite ao poder humano de destruição de toda e qualquer coisa passível de ser destruída pelo homem. não me parece tão
difícil reconhecer que a vida como ela é se dá a partir da mistura de partes
que contêm em si o mais profundo das diferenças. o exercício da pureza é o maior fracasso da
humanidade.
C.C.
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